sexta-feira, 19 de setembro de 2008

ESSÊNCIA IDENTITÁRIA


O livro em questão tem como mote o multiculturalismo e suas repercussões tanto nos meios escolares quanto na sociedade como um todo, sem descartar as práticas pedagógicas como meio de vencer as barreiras do preconceito de muitas culturas, que são a essência ou identidade de diversos grupos sociais. Cada qual com suas crenças, hábitos de se manisfestar em determinados meios, seja de forma positiva ou não. Isto dependerá do ponto de vista do observador, ou melhor, da classe dominante que impõe suas normas e prescreve o conceito dito como certo ou errôneo.
Neste singelo texto pretendo não descrever detalhadamente o livro. Porém, demonstrar de forma ampla as principais discussões abordadas e significativas no decorrer da leitura de tal obra.
Há que compreender antes de qualquer debate o significado de multiculturalismo, que não é um. Existem variadas abordagens sobre multiculturalismo, como a descritiva, a diferencialista, assimilacionista e a propositiva. A palavra multiculturalismo é sinônimo de diversidade cultural, esta podendo existir em uma mesma localidade. Assim, determinadas culturas podem estar se sobrepondo a outras. É este ponto que desejo atingir, pois em geral culturas ditas como certas, tomemos como exemplo a européia, negam o outro. Considerando-se como a certa, sem deixar espaço para a livre expressão das diversas culturas existentes. Desta forma, apartando e menosprezando determinadas práticas e formas de compreender a sociedade de modo distinto. Ao agir desta forma, excluem o diferente e muitas vezes fazem com que outrem ajam de uma forma que não lhes pertence, arrancando-se do corpo o seu eu, a sua identidade, que é manifestada por meio de sua cultura. Pensemos na Bolívia que nos dias atuais sofre diversos conflitos, um dos motivos é a mudança da constituição onde existe uma lei que visa dividir as terras por etnias, desrespeitando a união das mesmas, pois ao longo do tempo as etnias e culturas das mesmas se modificam. Uma toma conceitos da outra gerando uma nova ou simplesmente se modificando. Ao dividir o território por etnias haverá um maior preconceito racial do já existente, pois os brancos se sobrepõem aos variados grupos indígenas, como o dos “collas”. O conflito se intensifica por uma parte do país desejar se desmantelar principalmente devido a motivos étnicos que acarretam problemas sócio-econômicos-culturais, onde o principal agente é o preconceito que se fortifica a cada instante. Na Bolívia os brancos tomam como certo sujeitos possuírem cabelos cacheados ou ondulados, porque a raça indígena (maioria da população e é a dominada) é considerada inferior e por serem índios contém como traço genético o cabelo liso.
Com isto, muitas indígenas modelam seus cabelos, para torná-los cacheados e serem aceitas na sociedade. Conseqüentemente, excluindo uma parte de sua identidade devido à classe dominante apreciar e aceitar determinado modelo de cabelo. Este fator é de suma relevância na sociedade boliviana.
Considero a obra analisada como importante para estender a visão de qualquer sujeito (docente ou não) sobre as culturas. Ele oferece um leque de informações indispensáveis à prática pedagógica, pois nas instituições escolares predominam muitas culturas e deve-se saber como trabalhar com elas, de forma a não modificá-las ou arrancar-lhes sua essência.
Retornando nosso pensamento para o Brasil, onde cabelos lisos são vistos como belos e cacheados como vergonhosos. Isto se deve ao fato de que os negros ou descendentes dos mesmos serem ainda menosprezados, apartados, porém não excluídos da sociedade atual onde tal modelo de cabelo lhes pertence. Sabemos que o Brasil foi constituído por muitas raças onde os fatores econômicos foram os principais contribuintes para tal mistura. No entanto se vê hoje em dia o preconceito racial principalmente com os negros. Como se existisse determinismo biolológico na raça negra, do qual não pudesse se libertar. Com a lei 10.639/03, a qual obriga o ensino da história e cultura afro-brasileira em instituições escolares públicas e privadas, acredito que ao pô-la em prática o pensamento das crianças que se tornarão adultas se modificará e como conseqüência diminuirá ou até acabará o preconceito racial que impera no Brasil. Para aplicar a lei 10.639/03 é necessário que ocorra uma reforma curricular, onde o ensino da história e cultura afro-brasileira seja ativo. As escolas podem se desejarem utilizar a interdisciplinaridade para trabalhar com a lei em questão.
Muitos indivíduos acreditam que o fato de discriminar outrem se dá somente ao agredir verbal ou fisicamente, porém não se dão conta que esta agressão também ocorre na ausência de discursos, os quais homenageiem a raça/cultura que um dia ou ainda é desvalorizada. A lei 10.639/03 é uma forma de praticar a eloqüência da cultura afro-brasileira e fazer com que sujeitos negros ou descendentes destes não se envergonhem de suas identidades, pelo contrário, que sintam orgulho por serem negros.
A religião independente qual seja, constitui uma identidade de grupos seguidores. A maior parte dos sectários de candomblé é constituída por pessoas negras ou descendentes desta e é claro, por outros gupos raciais como o branco. Os praticantes de tal religião adoram e sentem muito orgulho de pertencerem ao candomblé. Porém, nas escolas ocultam e por vezes negam sua religião, pois esta não é aceita como uma boa religião e sim pertencente a Satanás. Mais uma vez vemos que a classe dominante gerou este conceito, se deve a fatores históricos que perduram nos dias atuais. Não pensemos que somente os seguidores de candomblé vêm sofrendo por sua religião não ser aceita. Se voltarmos no tempo os judeus também não eram aceitos, tanto é que em 1942 (época do nazismo) os judeus não só na Alemanha como na Holanda eram perseguidos. Nesta época eles por serem judeus eram proibidos de se locomoverem em carros elétricos, tempo depois nem de bicicleta poderiam andar, somente utilizar suas pernas. Aos judeus não lhes era permitido acesso a qualquer local de divertimento, conforme relata Anne Frank em seu diário, somente lhes restava as sorveterias. Nas ruas tinham que andar com uma estrela amarela no braço para serem identificados, realizar compras somente em lojas de judeus, dentre outros fatores repugnantes. Vale ressaltar que o preconceito quanto à religiões está presente no cotidiano de muitos discentes e a maioria dos docentes não compreende a diversidade que cada religião apresenta, julgando o candomblé como terapia para pobres.
Há diversas culturas no meio escolar, diferenciadas por faixas etárias, opções sexuais, gêneros, classes sociais, dentre outras. Cada qual com sua ideologia resultante de momentos históricos e do tempo e espaço em que se encontram.
Assim, tornar um mundo igualitário sem que a igualdade retire a diferença de cada um, é necessário o empenho da sociedade e principalmente do ser como indivíduo. Este seria o começo de uma grande empreitada que geraria bem estar psicológico aos atingidos pelo rechaço socialmente herdado. Basta saber que tratar os iguais com igualdade e os desiguais com desigualdade na mesma proporção da desigualdade, é sem dúvida respeitar e pôr em prática o princípio da equidade, isonomia ou igualdade, respeitando sempre as diferenças individuais de cada sujeito. Desta forma, deixando os no mesmo apanágio.


MOREIRA, Flávio Antonio. CANDAU, Vera Maria (orgs.). Multiculturalismo: diferenças culturais e práticas pedagógicas. Petrópolis, RJ: Vozes, 2008, 245 p.